Fronteiras do Invisível · Dossiê V

A argila cede antes de guardar. Sob a pressão de uma ponta de junco, sua superfície úmida afunda num triângulo; o pulso gira, o instrumento toca outra vez, e duas pequenas cunhas passam a significar uma quantidade. Ao lado da tábua, cestos de cevada aguardam distribuição. Há vozes no pátio, animais, poeira, o cheiro doce dos grãos e o rumor de uma cidade que já não consegue depender apenas da lembrança de quem contou.

O gesto dura poucos segundos. Sua consequência atravessará milênios. Quando aquela placa secar, uma entrega poderá ser conferida depois que o administrador for embora, contestada quando o trabalhador retornar e compreendida por alguém que não presenciou a cena. A marca não é ainda literatura. Não conta a criação do mundo, não declara amor, não registra a voz de um rei. Ela faz algo talvez mais radical: separa a informação do corpo que a pronunciou.

No fim do quarto milênio antes da nossa era, cidades do sul da Mesopotâmia haviam crescido a uma escala que exigia novas formas de coordenar trabalho, alimentos, rebanhos, oficinas e templos. Em Uruk e outros centros, práticas antigas de contagem, selagem e representação convergiram sobre um material abundante: o barro depositado nas planícies do Tigre e do Eufrates. Da combinação entre pressão urbana e experimentação gráfica surgiu um dos sistemas de escrita mais antigos conhecidos.

Mas quando, exatamente, a argila começou a falar? Quando um desenho se tornou palavra? E o que aconteceu com a memória humana quando uma voz pôde sobreviver ao seu dono?

Depois de atravessar os labirintos internos da percepção, voltamos agora ao movimento oposto: a consciência projetando-se para fora, entregando à matéria algo que antes existia apenas entre respiração, gesto e lembrança.

Mãos pressionam um cálamo de junco sobre uma pequena tábua de argila ao lado de cestos de cevada.
Reconstituição artística de um registro administrativo na Mesopotâmia. As primeiras tábuas conhecidas tratam sobretudo de bens, trabalho e distribuição.

Antes da frase, havia uma dívida

A escrita não apareceu num único instante, como se alguém tivesse inventado um alfabeto completo durante a noite. Antes das linhas de sinais, existia um mundo de objetos contábeis. Pequenas fichas de argila representavam quantidades ou categorias; selos identificavam pessoas e instituições; invólucros ocos, hoje chamados bullae, podiam guardar fichas e receber impressões externas. O compromisso deixava de depender apenas do aperto de mãos.

Durante muito tempo, uma teoria influente propôs que as formas das fichas teriam sido transferidas diretamente para a superfície das tábuas, produzindo os primeiros sinais. A arqueologia recente oferece uma imagem mais complexa. A relação é convincente para certas notações numéricas, mas muitos sinais proto-cuneiformes não correspondem de maneira demonstrável a fichas conhecidas. Selos, desenhos, marcas de propriedade e práticas administrativas variadas participaram de um ambiente visual mais amplo.

Essa incerteza não enfraquece a história. Ela a torna mais humana. Não houve uma estrada reta conduzindo inevitavelmente à escrita. Houve soluções sobrepostas para o mesmo problema: como tornar uma transação visível, verificável e durável. Em algum momento, tornou-se mais eficiente colocar a informação na superfície do barro do que encerrá-la dentro dele.

A mudança parecia pequena. Uma ficha representava uma medida de cereal; uma impressão representava a ficha. Mas o sinal liberou a quantidade do objeto que a corporificava. Várias operações podiam ser organizadas numa única superfície. Totais, categorias e responsáveis passaram a compartilhar um campo visual. O barro começou a funcionar não apenas como recipiente, mas como espaço de relações.

Fichas de argila, uma esfera oca quebrada, um selo cilíndrico e uma pequena tábua estão organizados sobre uma mesa de junco.
Fichas, selos, bullae e tábuas pertencem a uma longa história de administração material. A passagem entre eles continua sendo investigada.

As primeiras inscrições de Uruk não foram redigidas para um leitor moderno. Centenas de sinais permanecem difíceis de interpretar, e muitos textos não registram uma língua de forma plenamente recuperável. São contas compactas, listas e classificações. O escriba podia reconhecer um produto, um recipiente, uma quantidade, uma função. Para nós, cinco mil anos depois, parte daquele sistema permanece tão silenciosa quanto a argila antes do cálamo.

Por isso é mais prudente falar em proto-cuneiforme. A escrita ainda estava descobrindo o que poderia fazer. Ela registrava o mundo sem conseguir, de início, acompanhar toda a flexibilidade da fala. Não era primitiva no sentido de simples; algumas tábuas revelam sistemas numéricos e contábeis extremamente especializados. Era limitada de outro modo: mostrava com precisão certas relações administrativas, mas ainda tinha dificuldade para expressar qualquer frase que alguém pudesse dizer.

Uruk e a cidade que precisava lembrar

Uruk ocupava centenas de hectares e articulava uma população diversa de agricultores, artesãos, pastores, transportadores, sacerdotes e administradores. Grandes complexos institucionais recebiam, transformavam e redistribuíam produtos. Cevada chegava dos campos. Lã passava por oficinas. Animais eram contados, trabalhadores recebiam rações, recipientes mudavam de mãos.

Em uma comunidade pequena, reputação e memória oral podem sustentar muitas obrigações. Numa cidade, a escala altera a natureza do problema. Quem entregou? Quanto foi recebido? Qual medida foi usada? O que pertence ao templo, ao palácio, à oficina ou ao trabalhador? Quando a quantidade de relações supera a capacidade de qualquer pessoa recordá-las, a administração precisa construir uma memória fora das pessoas.

A tábua respondia porque era barata, portátil e plástica. A argila podia ser recolhida, umedecida, modelada na palma da mão e reutilizada enquanto permanecesse mole. Ao secar, tornava-se suficientemente resistente para armazenamento e transporte. Se o fogo alcançasse um arquivo, podia destruir o edifício e, paradoxalmente, cozer as tábuas, preservando-as com ainda mais dureza.

Não devemos imaginar um escritório moderno transplantado para a Antiguidade. Os sistemas de medida variavam conforme a mercadoria; os sinais eram posicionados de acordo com convenções que mudaram ao longo do tempo; selos e testemunhas continuavam importantes. A escrita não substituiu a confiança, o poder ou a presença. Ela os reorganizou.

Pátio mesopotâmico com cestos de cevada, trabalhadores, animais e um escriba sentado registrando a distribuição em argila.
Uruk como máquina de redistribuição: a escrita cresce dentro das necessidades de uma sociedade urbana estratificada.

Uma lista antiga de funções encontrada em Uruk reúne dirigentes, responsáveis pelo arado e pelos rebanhos, especialistas religiosos e trabalhadores de diferentes ofícios. O texto não nos apresenta indivíduos com biografias; classifica lugares dentro de uma ordem. Esse é um dos primeiros poderes da escrita: ela torna a sociedade legível para quem administra — e, ao fazer isso, decide quais aspectos das pessoas merecem virar registro.

Há uma sombra nesse nascimento. A memória externa liberta, mas também controla. Uma ração registrada pode proteger o recebedor contra o esquecimento; pode igualmente fixá-lo numa categoria de trabalho. Uma dívida preservada não desaparece com a morte de quem a ouviu. O mesmo suporte que transportará poemas começou por ampliar a duração das instituições.

A escrita, portanto, não é apenas um espelho da civilização. Ela modifica aquilo que reflete. Permite comparar períodos, acumular excedentes, auditar entregas e transmitir instruções. Ao congelar uma relação, cria novas formas de responsabilidade — e novas formas de autoridade sobre o que ficou escrito.

O dia em que o desenho encontrou o som

Um pictograma pode representar uma cabeça, um peixe ou uma espiga. Seu alcance parece intuitivo enquanto a ideia permanece concreta. Mas como desenhar um nome? Como registrar um verbo, uma negação, um tempo, uma relação de parentesco? A fala opera com sons capazes de carregar qualquer pensamento; o desenho de objetos, sozinho, encontra rapidamente seus limites.

A grande transformação ocorreu quando os sinais começaram a ser usados não apenas por aquilo que mostravam, mas por aquilo que soavam. O princípio costuma ser chamado de rébus. Em português, alguém poderia combinar o desenho de um sol com o de um dado para sugerir “soldado”. As imagens deixam de apontar somente para objetos e passam a fornecer peças sonoras.

No proto-cuneiforme, indícios desse uso aparecem entre aproximadamente 3200 e 3000 a.C.; uma utilização fonética mais consistente torna-se perceptível depois de 2600 a.C. Não foi um salto limpo. Sinais continuaram a funcionar como palavras inteiras, sílabas, números ou classificadores. Um mesmo sinal podia assumir várias leituras; vários sinais podiam representar sons semelhantes. O leitor precisava reconstruir a intenção pelo contexto.

A própria forma gráfica mudou. Os primeiros sinais eram riscados ou desenhados na argila. Gradualmente, a extremidade de um cálamo cortado foi pressionada em diferentes ângulos, produzindo marcas triangulares e traços. O desenho reconhecível tornou-se composição abstrata. O termo moderno “cuneiforme” deriva justamente dessas cunhas.

Sequência material mostra um pictograma simples desenhado na argila transformando-se gradualmente em um sinal composto por cunhas.
A evolução gráfica não foi idêntica para todos os sinais. Esta é uma visualização conceitual da passagem entre desenho, rotação e impressão abstrata.

A abstração trouxe velocidade e regularidade, mas também elevou a barreira de entrada. Já não bastava reconhecer uma ovelha desenhada. Era preciso aprender convenções, listas, valores fonéticos e exceções. Escrever tornou-se ofício especializado.

Também é importante separar escrita de língua. Cuneiforme não é uma língua, assim como o alfabeto latino não é português. O sistema foi criado no ambiente do sul mesopotâmico e associado inicialmente ao sumério, mas acabou adaptado ao acadiano, ao elamita, ao hitita, ao hurrita, ao urartiano e a muitas outras línguas. Em seu período de maior difusão, sinais impressos em barro conectaram regiões do Mediterrâneo oriental ao atual Irã.

Essa adaptabilidade mostra que a tecnologia havia ultrapassado suas figuras de origem. O mesmo repertório gráfico podia vestir sons e gramáticas diferentes. Uma ferramenta concebida para administrar cevada tornara-se uma infraestrutura internacional de comunicação.

A casa das tábuas

Imagine uma pequena tábua arredondada, do tamanho da palma. De um lado, o professor imprime um sinal. Do outro, o aluno tenta repeti-lo. A argila registra a hesitação do aprendiz: cunhas profundas demais, alinhamento irregular, uma forma que começa correta e perde proporção. Milhares de anos depois, o erro continua visível.

Textos mesopotâmicos usam a expressão suméria é-dub-ba-a, “casa das tábuas”, para espaços associados ao ensino, à escrita e à preservação textual. É tentador imaginar uma rede uniforme de escolas formais, mas a evidência do período paleobabilônico aponta muitas vezes para ambientes domésticos e iniciativas de pequena escala. Em cidades como Nippur, Ur, Isin, Sippar e Kish, exercícios foram encontrados em casas que parecem ter reunido mestre e poucos alunos.

O currículo começava com o corpo. Preparar a argila, formar a tábua, segurar o cálamo, controlar ângulo e pressão. Depois vinham sinais simples, sílabas, nomes próprios, listas de objetos, profissões, animais e lugares. O estudante copiava a linha do mestre, apagava, repetia, memorizava. Em estágios avançados, enfrentava provérbios, contratos-modelo, matemática e composições literárias.

Mestre e jovem aprendiz trabalham com pequenas tábuas de argila numa oficina doméstica iluminada por uma porta.
Reconstituição artística de ensino paleobabilônico. Muitas evidências vêm de exercícios encontrados em residências, não de grandes academias centralizadas.

Listas lexicais desempenharam papel central. Elas não eram dicionários modernos, mas podiam organizar centenas de sinais e palavras por temas, valores ou associações. Durante séculos, foram copiadas, expandidas e transformadas. O que começara como manual técnico de uma ferramenta administrativa converteu-se em currículo e, depois, em instrumento de interpretação erudita.

O escriba aprendia mais que caligrafia. Aprendia medidas, fórmulas, línguas, convenções jurídicas e o modo como a instituição classificava o mundo. Sua competência permitia que um contrato fosse reconhecido, uma carta chegasse ao destinatário e um ritual fosse executado segundo uma sequência preservada. Isso lhe dava prestígio, mas também responsabilidade: um sinal ambíguo ou um total incorreto podia alterar bens, heranças e decisões.

A escrita não eliminou a oralidade. Textos podiam ser ditados, lidos em voz alta, cantados, recitados em festivais ou explicados por especialistas. A tábua era partitura, arquivo e testemunha; a voz continuava necessária para reanimá-la. “Argila que fala” não é apenas metáfora poética. Para a maioria das pessoas que não dominava centenas de sinais, o texto realmente precisava voltar à boca de um leitor.

Quando a conta começou a conter o mundo

Depois de dominar quantidades, nomes e frases, o cuneiforme se espalhou por quase todas as zonas da experiência mesopotâmica. Tábuas registraram empréstimos, adoções, casamentos, processos, receitas, observações celestes, diagnósticos, presságios, hinos, encantamentos, exercícios escolares e cartas privadas. A escrita não abandonou a contabilidade; construiu ao redor dela uma civilização documental.

Uma carta encontrada em Sippar, datada de aproximadamente 1632 a.C., transmite a preocupação de um funcionário porque ordens reais para proteger uma cidade não estavam sendo cumpridas. Outras tábuas preservam disputas comerciais de mercadores assírios que viviam na Anatólia, longe de suas famílias. Elas viajavam dentro de envelopes de argila selados. Quebrar o invólucro era abrir uma voz vinda de outra cidade.

Textos médicos e rituais revelam uma sociedade na qual doença, religião, diagnóstico e proteção sobrenatural não estavam separados como hoje. Especialistas copiavam encantamentos contra perigos atribuídos a demônios, instruções para partos, amuletos e tratamentos. O registro permite estudar essas crenças; não comprova a existência das entidades mencionadas. O que ele demonstra é que medo, cuidado e conhecimento técnico foram organizados em tradições transmissíveis.

Mosaico de quatro cenas mostra uma conta de cevada, uma carta em envelope de argila, uma tábua astronômica e um ritual com amuleto.
Da administração à imaginação: o mesmo sistema gráfico passou a preservar negócios, ciência, religião e literatura.

A astronomia babilônica acumulou observações ao longo de gerações porque datas e fenômenos podiam ser comparados. A matemática desenvolveu tabelas e procedimentos. A jurisprudência reuniu contratos e decisões. A literatura transformou narrativas antes dependentes de performance em sequências que podiam ser copiadas, editadas e recombinadas.

É nesse horizonte que aparecem Gilgamesh, Atrahasis e o Enuma Elish. Não são fósseis de uma história repetida mecanicamente. As cópias revelam variantes, escolhas de escribas e contextos políticos. Um texto podia preservar uma tradição e, ao mesmo tempo, reformulá-la. A escrita aumenta a duração de uma narrativa, mas não a congela.

Essa diferença será decisiva no próximo artigo da série. Ler o Enuma Elish como mito de criação, peça ritual, afirmação da supremacia de Marduk ou possível espelho celeste exige distinguir as palavras preservadas das interpretações acrescentadas milênios depois. Antes de perguntar o que os deuses escondem, precisamos saber como o texto chegou até nós.

A biblioteca que o fogo não conseguiu apagar

No século VII a.C., o rei assírio Assurbanípal reuniu em Nínive uma coleção sem paralelo. Escribas procuraram, copiaram e organizaram textos vindos de diferentes centros. Havia léxicos, comentários, rituais, séries de presságios, medicina, literatura e documentos administrativos. Mais de trinta mil tábuas e fragmentos associados às ruínas de Nínive chegaram às coleções modernas.

É comum imaginar a Biblioteca de Assurbanípal como uma sala silenciosa de prateleiras intactas. A pesquisa recente descreve um conjunto mais vivo e irregular: materiais pertencentes a diferentes coleções, textos copiados de fontes babilônicas e assírias, obras editadas, marcas de propriedade e fragmentos deslocados. Não era uma biblioteca pública. Era uma tecnologia de conhecimento ligada ao palácio e à capacidade imperial de reunir especialistas.

Escribas trabalham entre prateleiras baixas com tábuas de argila etiquetadas em um arquivo assírio iluminado por lamparinas.
Reconstituição artística de um arquivo erudito de Nínive. A chamada Biblioteca de Assurbanípal era um conjunto complexo, moldado pela corte e por gerações de escribas.

Quando Nínive foi conquistada em 612 a.C., edifícios queimaram e ruíram. O desastre que encerrou a capital ajudou a preservar parte de seus textos: algumas tábuas foram endurecidas pelo calor; outras sobreviveram sob os escombros. Mas não encontramos uma biblioteca congelada no momento da queda. Fragmentos foram quebrados, misturados e removidos. Cada reconstrução moderna é também uma tentativa de devolver vizinhança a pedaços separados.

Há nisso um paradoxo material. Papiro e madeira podem conservar uma escrita mais leve, mas desaparecem com facilidade em ambientes úmidos ou incêndios. A argila é pesada, pouco prática para longos volumes e vulnerável a quebras. Ainda assim, quando sobrevive, mantém até a pressão da mão. Uma tábua não guarda apenas sinais; guarda a força, o ângulo e o ritmo com que foram feitos.

Ao tocar — ou apenas observar sob luz rasante — uma dessas superfícies, estamos diante de um encontro que nenhum copista planejou. A mensagem pode ter perdido seu destinatário, a língua pode ter deixado de ser falada, o palácio pode ter virado colina. O gesto do escriba, porém, ainda projeta sombra.

O paredão que ensinou o século XIX a escutar

Quando viajantes europeus começaram a copiar inscrições em forma de cunha, ninguém sabia com segurança que línguas elas registravam. Alguns desconfiavam que fossem ornamento. Outros procuravam alfabetos onde havia sistemas que combinavam sílabas, palavras e sinais determinativos. Ler exigiria mais do que substituir cada marca por uma letra.

A chave mais célebre estava gravada num paredão de calcário em Bisotun, no atual Irã. Encomendada por Dario I, a inscrição monumental narra sua vitória sobre adversários e apresenta o texto em persa antigo, elamita e babilônico. As três versões não são mecanicamente idênticas, mas oferecem nomes, títulos e episódios correspondentes.

No início do século XIX, Georg Friedrich Grotefend identificou padrões ligados a nomes reais, incluindo Dario e Xerxes, em inscrições persas. Décadas depois, Henry Creswicke Rawlinson copiou partes de Bisotun em expedições arriscadas no paredão e ampliou o trabalho sobre o persa antigo. A versão conhecida tornou-se ponte para sistemas mais complexos.

A decifração não foi façanha de um único herói. Edward Hincks reconheceu propriedades fundamentais da escrita babilônica, incluindo sua natureza silábica e a multiplicidade de valores dos sinais. Jules Oppert, William Henry Fox Talbot, Edwin Norris e outros contribuíram para línguas e inscrições diferentes. Houve competição, crédito desigual, erros e correções.

Pesquisador do século XIX suspenso por cordas copia uma inscrição trilíngue em um alto paredão de calcário.
Reconstituição artística do trabalho em Bisotun. O monumento foi decisivo, mas a leitura do cuneiforme resultou de décadas de colaboração e disputa.

Em 1857, a Royal Asiatic Society enviou um texto assírio recém-descoberto a Rawlinson, Hincks, Oppert e Talbot. Eles trabalharam separadamente e entregaram traduções seladas. As versões não coincidiam palavra por palavra, mas convergiam o suficiente para convencer a comissão de que o sistema podia ser lido. Pela primeira vez em mais de dois milênios, longas vozes da Mesopotâmia voltavam a produzir sentido.

Bisotun é frequentemente chamada de “Pedra de Roseta do cuneiforme”. A comparação ajuda, desde que não transforme a história num clique instantâneo. O persa antigo era apenas uma porta. Sumério, acadiano, elamita e outras línguas exigiram corpora maiores, listas antigas, línguas aparentadas e gerações de pesquisa. Ainda hoje, sinais raros, trechos danificados e vocabulários especializados desafiam a interpretação.

A decifração também pertence à história do imperialismo e das coleções. Tábuas foram escavadas, compradas, divididas e transportadas durante a expansão europeia no Oriente Médio. Fragmentos da mesma obra podem permanecer em países e museus diferentes. Reconstruir um texto é, muitas vezes, reunir digitalmente pedaços que a história moderna separou.

O que a tábua diz — e o que desejamos ouvir

O cuneiforme recuperado abriu um continente de histórias. Também abriu espaço para projeções. Como seus sinais parecem misteriosos e seus deuses habitam uma cosmologia distante, traduções populares frequentemente prometem naves, mapas secretos do sistema solar ou testemunhos diretos de visitantes não humanos.

O problema não é imaginar. O problema é apagar as etapas que permitem testar uma leitura. Uma tradução responsável identifica a tábua, sua proveniência, o idioma, a cópia, as lacunas, a gramática e as alternativas lexicais. Termos como “câmara celeste” ou “pássaro de metal”, quando aparecem apenas em paráfrases modernas sem linha, edição ou sinal correspondente, não podem ser tratados como evidência do texto antigo.

O artefatoMaterial, contexto arqueológico, datação, dimensões e sinais preservados.

A leituraTransliteração, língua, gramática, lacunas e variantes entre cópias.

A traduçãoEscolhas modernas para tornar inteligível um texto distante.

A interpretaçãoHipóteses históricas, religiosas, astronômicas ou simbólicas — sempre posteriores ao artefato.

Essas camadas não precisam matar o encantamento. Elas impedem que o desejo fale mais alto que a tábua. Um mito pode conter observação do céu sem ser relatório de engenharia. Um encantamento revela medos e práticas sociais mesmo que não demonstre a criatura combatida. Uma lista de rações pode parecer menos espetacular que uma batalha divina, mas oferece acesso extraordinário ao trabalho e à desigualdade de pessoas reais.

Também precisamos reconhecer o silêncio. A maior parte da população não escrevia, e aquilo que chegou até nós favorece instituições capazes de produzir e armazenar tábuas. Camponeses, mulheres, crianças, estrangeiros e pessoas escravizadas aparecem muitas vezes como nomes, dependentes, trabalhadores ou quantidades registradas por outros. A escrita preserva vozes — e preserva a assimetria de quem teve poder para registrar.

Ler criticamente significa ouvir tanto o texto quanto sua moldura. Quem encomendou? Quem escreveu? Para quem? Onde foi encontrado? Por que foi copiado? O que não entrou na lista? Essas perguntas transformam a tábua de oráculo em documento histórico — e, justamente por isso, tornam seu testemunho mais profundo.

A voz que sobreviveu ao corpo

Voltemos à pequena tábua de cevada. Agora sabemos que ela pertence a uma cadeia maior: fichas e selos, cidades e instituições, pictogramas e números, sons e listas, mestres e aprendizes, palácios e arquivos. Também sabemos que nada nela era inevitável. Cada cunha resulta de escolhas técnicas e sociais acumuladas.

A argila não aprendeu a falar sozinha. Pessoas ensinaram a matéria a conservar diferenças. Uma marca passou a não ser outra; uma sequência passou a representar quantidade, nome, sílaba, ordem, pergunta. Quando leitores aprenderam a repetir essas relações, o sinal pôde atravessar distância e tempo.

O ganho foi imenso. Uma cidade pôde lembrar. Um mercador pôde escrever à família. Um estudante pôde encontrar o erro da própria mão. Observações celestes puderam ser comparadas além de uma vida. Mitos puderam sobreviver ao fim do festival. Milênios depois, quatro tradutores separados puderam ouvir a mesma voz numa língua que o mundo julgara perdida.

O preço também permanece. O que é escrito adquire autoridade; o que não é registrado corre o risco de desaparecer. Classificar ajuda a compreender e permite controlar. Arquivos preservam memória e refletem a seleção de quem os construiu. Desde a primeira conta até o banco de dados contemporâneo, toda memória externa guarda algumas coisas ao escolher outras.

Tábua cuneiforme antiga repousa sob luz rasante em uma mesa contemporânea enquanto as sombras das cunhas formam uma linha contínua.
A escrita vence a ausência sem vencer o tempo por completo. Cada leitura devolve voz à argila — e acrescenta a responsabilidade de não fazê-la dizer o que nunca disse.

A última marca da tábua não encerra a história. Ela abre uma passagem para o momento em que a escrita deixou de contar apenas o mundo e passou a recriá-lo. Sete tábuas babilônicas narram águas primordiais, gerações de deuses, uma guerra cósmica e a ascensão de Marduk. Agora temos a ferramenta necessária para nos aproximar delas.

Próxima passagem: no próximo artigo, leremos o Enuma Elish como texto, ritual e disputa de poder — antes de perguntar se sua criação também pode ser interpretada como mapa do céu.


Fontes e leituras utilizadas