Tomo 1 · Temporada 1 · Capítulo 1
O mapa que não mostrava o céu
Ao devolver um livro proibido, Niamh encontra um mapa que não registra lugares, mas as memórias daqueles que foram apagados.
I. O livro proibido
Na noite em que o mapa acordou, Niamh estava devolvendo um livro que jamais deveria ter retirado da Biblioteca das Marés.
Carregava o volume apertado contra o peito e caminhava de lado entre duas estantes, como se a posição do corpo pudesse torná-la mais fina, mais silenciosa ou, com um pouco de sorte, invisível. O couro azul-escuro da capa parecia frio através da túnica. Letras de prata anunciavam: Rotas que não levam de volta.
O título fora o primeiro motivo para abri-lo.
O selo do Conselho, o segundo.
O fato de WindFur ter dito “não” fora, naturalmente, o terceiro.
A biblioteca dormia ao ritmo do oceano. Construída na parte mais baixa do distrito oriental de Atlântida, ela recebia as marés por canais escavados sob o piso. A água não tocava os livros; passava por galerias de pedra e fazia o edifício respirar. Quando a maré subia, as colunas murmuravam. Quando descia, pequenas conchas de vidro tilintavam nas arcadas para marcar a mudança das horas.
Niamh esperou o último tilintar desaparecer.
À frente, uma ponte estreita ligava a ala comum ao Arquivo das Rotas. No centro da ponte havia um arco de bronze. Quem o atravessasse sem autorização faria soar um sino no gabinete da guardiã.
Ela conhecia o mecanismo. Conhecer mecanismos era uma das vantagens de ser filha de Cyan.
Ignorá-los era uma habilidade que desenvolvera sozinha.
Niamh tirou do bolso uma lasca de madrepérola e a introduziu na junção inferior do arco. O metal vibrou. Por um instante, o símbolo de vigilância gravado no alto pareceu olhar diretamente para ela.
— Não precisa me julgar — sussurrou. — Já estou devolvendo.
O símbolo continuou com a mesma expressão, o que era especialmente irritante para algo sem rosto.
Ela apoiou a ponta dos dedos no bronze. Não lançou um feitiço. Eirene perceberia um feitiço a três distritos de distância e perguntaria, com aquela calma insuportável, o que exatamente a filha estava tentando esconder. Niamh fez algo menor: procurou, entre as possibilidades próximas, uma em que a dobradiça não rangesse.
Encontrou.
O arco se abriu sem ruído.
Ao mesmo tempo, em algum lugar atrás dela, uma concha de vidro caiu sozinha e se partiu no piso.
Niamh fechou os olhos.
— Depois eu conserto.
— Essa frase nunca melhorou uma ideia sua.
A voz veio do alto da estante.
Niamh ergueu a cabeça devagar.
WindFur estava sentado sobre a cornija de madeira, grande demais para caber ali e sereno demais para alguém que acabara de surpreender uma invasora. A pelagem alaranjada capturava os reflexos azuis dos canais. A armadura leve que usava nas rondas estava coberta por um manto escuro, e os olhos verdes tinham o brilho paciente de quem aguardava havia bastante tempo.
— Há quanto tempo você está aí?
— Antes da madrepérola.
— E deixou que eu continuasse?
— Eu queria descobrir se o plano possuía uma segunda etapa.
— Possuía.
WindFur saltou. Caiu diante dela sem fazer mais barulho que um livro sendo fechado.
— Culpar a maré?
Niamh apertou o volume contra o peito.
— Era uma das opções.
— A maré costuma deixar pegadas?
Ela olhou para baixo. Os pés descalços estavam marcados de poeira azul.
— Uma maré muito específica.
Por um momento, WindFur manteve a expressão severa. Então um dos bigodes se moveu. Era o mais perto que ele chegava de rir quando considerava importante parecer responsável.
— Devolva o livro, pequena.
Niamh passou por ele com a dignidade possível para alguém apanhado antes da segunda etapa.
II. Cartografia do ausente
O nicho de Rotas que não levam de volta ficava no fim do Arquivo, entre tratados sobre portais falhos e relatos de cidades que haviam mudado de lugar. Niamh recolocou o volume exatamente onde o encontrara. Empurrou-o até que a lombada se alinhasse às demais e limpou com a manga a marca de seus dedos.
— Pronto — disse. — Nenhuma catástrofe.
Uma pilha de pergaminhos caiu atrás dela.
WindFur olhou para os rolos espalhados no chão.
Niamh suspirou.
— Tecnicamente, isso é desorganização.
Nenhum dos dois havia tocado na pilha.
Os pergaminhos continuaram a se mover. Cordões se desfizeram, lacres de cera rolaram pelas pedras e folhas amareladas deslizaram umas sobre as outras, como peixes procurando água. Do centro do emaranhado surgiu uma luz violeta muito fina.
WindFur ficou imóvel.
Não era medo. Quando sentia medo, ele se tornava mais rápido. A imobilidade significava que reconhecera alguma coisa e não gostara do reconhecimento.
— Atrás de mim — ordenou.
Niamh obedeceu por quase dois segundos.
Então espiou por baixo do braço dele.
Um último pergaminho desenrolou-se no piso. Era largo, feito de um material que lembrava pele e folha ao mesmo tempo. Não havia continentes, oceanos ou nomes. Centenas de pontos luminosos surgiam e desapareciam sobre a superfície, ligados por traços tão delicados que pareciam rachaduras numa camada de gelo.
— Um mapa celeste — disse Niamh.
— Não.
— Tem estrelas.
— Ter estrelas não faz de uma coisa um céu.
WindFur ajoelhou-se sem tocar no objeto. Aproximou uma garra de um dos pontos e acompanhou o desenho das linhas. Niamh conhecia as constelações atlantes. Eirene ensinara a observá-las antes mesmo de ensinar seus nomes: primeiro as distâncias, depois as histórias. Aqueles desenhos, porém, não correspondiam a nada que ela já tivesse visto.
Havia uma espiral de nove estrelas em torno de um centro vazio. Um arco interrompido onde deveriam existir três sóis. Uma figura semelhante a um animal de quatro asas, embora nenhuma das asas apontasse para a mesma direção.
E, perto da borda, uma constelação inteiramente escura.
Não era apenas a ausência de luz. Os pontos negros pareciam recortes no pergaminho, pequenas aberturas para um lugar onde nem o reflexo das lamparinas conseguia entrar.
— Você sabe o que é — disse Niamh.
WindFur não respondeu.
— Seus bigodes sabem.
— Meus bigodes não participam desta conversa.
— Eles ficam retos quando você está preocupado.
— Conselho. Agora.
Ele estendeu a mão para enrolar o mapa. A superfície se contraiu antes que seus dedos a alcançassem. As estrelas se dispersaram e voltaram a formar desenhos diferentes.
WindFur tentou outra vez.
O mapa recuou.
Niamh abafou um sorriso.
— Parece que ele também não gosta do Conselho.
— Objetos antigos não têm opinião.
O pergaminho golpeou os dedos dele com uma ponta.
— Alguns são mais convincentes que outros — acrescentou WindFur.
Niamh se agachou ao lado do mapa. O brilho violeta refletiu em seus olhos e fez o Arquivo desaparecer por um instante. Ela sentiu cheiro de chuva, embora o céu lá fora estivesse limpo. Depois vieram outras sensações: pedra aquecida por dois sóis; um vento salgado que não pertencia ao oceano de Atlântida; o gosto metálico de uma palavra esquecida.
— Niamh.
Ela percebeu que sua mão se aproximava do pergaminho.
Recuou.
— Eu não ia tocar.
— Ia.
— Ia tocar com cuidado.
— Essa diferença só existe para quem não precisa explicar o resultado à sua mãe.
III. A estrela que respondia
WindFur retirou do cinto uma pequena placa de obsidiana. Traçou sobre ela um triângulo dentro de um círculo, e uma película dourada envolveu o mapa. Era uma contenção simples: forma para limitar, energia para sustentar, intenção para fechar.
As estrelas se apagaram.
Niamh sentiu uma batida forte no peito.
O ponto dourado da placa rachou.
As estrelas acenderam de novo.
— Isso também acontece com objetos sem opinião? — perguntou ela.
WindFur guardou a placa quebrada.
— Acontece com objetos que foram feitos para reconhecer alguma coisa.
— O quê?
Ele olhou para Niamh.
A resposta estava ali, mas ele a empurrou para o mesmo lugar onde guardava todas as respostas que julgava perigosas.
— Precisamos chamar Eirene.
— Se chamarmos minha mãe, ela chamará a Ordem. Se a Ordem vier, o mapa desaparece em uma sala onde ninguém com menos de trezentos anos pode fazer perguntas.
— Isso foi bastante específico.
— Eu conheço a Ordem.
— Você conhece três sacerdotes e uma porta trancada.
— A porta confirma meu argumento.
WindFur passou a mão pelo rosto. Niamh sabia que ele queria entregar o artefato. Também sabia que ele ainda não o fizera. Se estivesse apenas preocupado com uma infração, já a teria levado para casa pelo colarinho da túnica.
Ele temia o mapa.
Ou temia aquilo que o mapa reconhecera.
Uma das estrelas perto do centro brilhou. Uma vez.
O coração de Niamh respondeu.
A estrela brilhou de novo.
— WindFur.
— Eu vi.
Niamh segurou o próprio pulso. O ponto luminoso acompanhou cada batida, primeiro atrasado, depois em perfeita sincronia. Linhas violetas nasceram ao redor dele e atravessaram constelações inteiras. A cada pulsação, o mapa parecia procurar um caminho.
WindFur se colocou entre ela e o pergaminho.
— Afaste-se.
— Ele está tentando mostrar alguma coisa.
— E nós não sabemos o preço.
— Então ficamos olhando até ele parar?
— Sim.
— Esse é o plano menos WindFur que você já teve.
— Fico aliviado que minha reputação sobreviva à noite.
Niamh contornou o mentor; ele acompanhou o movimento. Ela tentou pelo outro lado; ele a bloqueou novamente. Por fim, ficaram girando ao redor do mapa como participantes de uma dança muito lenta e muito irritada.
— Você confia em mim? — ela perguntou.
— Para muitas coisas.
— Não foi o que eu perguntei.
Os olhos verdes perderam a ironia.
— Confio em você, pequena. Não confio no que pode estar usando sua curiosidade para abrir uma porta.
— Então me ajude a descobrir antes que o Conselho decida por nós.
WindFur observou a constelação pulsante. Niamh viu a guerra acontecer em silêncio no rosto dele: dever contra afeto, prudência contra o segredo que o trouxera a Atlântida.
Por fim, ele se ajoelhou ao lado dela.
— Um minuto — disse. — Nenhum feitiço. Nenhuma alteração de probabilidade. Você descreve somente o que percebe. Se eu mandar parar, você para.
— Três regras em uma frase.
— Eu poderia acrescentar outras.
— Um minuto está ótimo.
IV. O que os mapas escolhem
WindFur colocou quatro pesos de pedra nas extremidades do pergaminho. Niamh sentou-se sobre os calcanhares e deixou as mãos à vista.
— O que percebe? — perguntou ele.
Ela olhou sem procurar nomes.
— As linhas não ligam as estrelas mais próximas. Algumas atravessam pontos muito mais brilhantes e escolhem outros quase invisíveis.
— Continue.
— As figuras mudam quando eu mudo de posição.
Niamh inclinou o corpo. A espiral tornou-se uma árvore. Inclinou-se para o lado oposto, e a árvore se transformou numa mão aberta.
— Talvez esteja quebrado.
— Ou talvez você ainda pense que um mapa deve copiar aquilo que representa.
Ela franziu a testa.
WindFur apontou para o canal que corria junto à parede.
— Se desenhasse a biblioteca para alguém que procura a saída, o que mostraria?
— Portas, corredores, escadas.
— E os livros?
— Não seriam importantes.
— Para alguém procurando um tratado?
— As portas seriam menos importantes.
— A biblioteca mudou?
Niamh voltou a olhar o pergaminho.
— Não. O mapa escolheu uma pergunta.
— Todo mapa escolhe. Alguns apenas fingem que não.
Ela acompanhou a linha que partia da estrela sincronizada ao seu coração. Passava pela árvore, pela mão e pela figura de quatro asas. Em cada cruzamento, uma sensação surgia: água, pedra, vento, ausência.
Não eram distâncias.
Eram lembranças.
Niamh pensou nas marcas do mapa como cenas e não como astros. A espiral de nove estrelas estremeceu. De repente, ela soube — sem entender como — que ali existira uma cidade construída ao redor de uma torre inclinada. Viu crianças correndo por pontes translúcidas. Ouviu alguém cantar numa língua que não conhecia e, ainda assim, sentiu saudade.
Então tudo desapareceu.
Niamh levou a mão à boca.
— Havia pessoas ali.
WindFur ficou muito quieto.
— Onde?
— Não sei. Nove estrelas. Uma cidade. Mas não era uma visão do lugar. Era como... como lembrar de uma casa em que nunca vivi.
O mentor olhou para a espiral. Quando falou, sua voz saiu baixa.
— As constelações perdidas não são conjuntos de estrelas que sumiram.
— São memórias.
— Memórias de lugares retirados das rotas conhecidas. Mundos isolados, cidades apagadas, caminhos que alguém decidiu que não deveriam mais ser encontrados.
Niamh sentiu o fascínio ceder espaço a uma raiva sem nome.
— Quem pode apagar um lugar?
— Ninguém por completo.
— Tentaram.
— Sim.
— Foi o Conselho?
— Não sei.
Ela percebeu que era verdade. WindFur escondia coisas, mas não fingia ignorância com facilidade. O mapa mostrava um perigo que nem ele compreendia.
A constelação escura moveu-se.
Não no pergaminho.
Dentro da percepção de Niamh.
Por um instante ela viu outra versão do Arquivo: as estantes queimadas, os canais secos, WindFur caído junto ao arco de bronze. Piscou, e a biblioteca estava inteira outra vez.
— O que houve? — ele perguntou.
— Nada.
A resposta rápida demais fez as orelhas dele se inclinarem.
Antes que pudesse insistir, vozes ecoaram na ala comum. A guardiã fazia sua ronda. Pequenas luzes brancas avançavam pelo corredor, estante após estante.
WindFur começou a enrolar o mapa.
Desta vez, o pergaminho permitiu.
Até que Niamh viu uma linha violeta escapar pela borda e seguir em direção à constelação escura.
— Espere.
— O minuto terminou.
— Há alguma coisa presa ali.
— Niamh.
O ponto negro pulsou.
Não no ritmo do coração dela.
No intervalo entre uma batida e outra.
V. A floresta dentro da biblioteca
A luz da ronda dobrou o corredor.
WindFur ergueu o mapa. A constelação escura abriu-se como uma pupila.
Niamh ouviu um pedido.
Não era uma voz, nem uma palavra. Era a sensação de uma mão procurando outra no escuro. O chamado atravessou seu peito e encontrou algo que ela não sabia carregar.
Ela tocou o mapa.
WindFur segurou seu pulso no mesmo instante.
Tarde demais.
O Arquivo perdeu o peso.
As lamparinas alongaram-se em riscos dourados. As estantes pareceram recuar por um corredor impossível, embora nenhuma delas saísse do lugar. Niamh sentiu centenas de futuros se abrirem ao redor de sua mão: em um, WindFur arrancava o mapa e o selo se fechava; em outro, a guardiã chegava a tempo; em outro, o pergaminho queimava; em outro, Niamh nunca entrara na biblioteca.
Ela tentou soltar os dedos.
O mapa não deixou.
— Não escolha! — ordenou WindFur.
— Eu não estou escolhendo!
— Está tentando escolher todos.
A frase atingiu Niamh com mais força que um grito.
Ela respirou como Eirene ensinara: não para expulsar o medo, mas para dar a ele um lugar que não ocupasse tudo. Sentiu a mão de WindFur em seu pulso. Sentiu o piso sob os joelhos. Sentiu uma única batida do próprio coração.
Uma possibilidade.
Depois outra.
Não todas.
O pergaminho afrouxou.
Niamh puxou a mão.
Uma onda de luz violeta correu pelo chão e subiu pelas estantes. Os livros estremeceram. Os canais transbordaram ao mesmo tempo, espalhando água salgada entre as mesas.
No centro do Arquivo, o ar se partiu.
Raízes atravessaram a abertura.
Elas tocaram o mármore, cobertas de terra escura e gotas de chuva. Samambaias se desenrolaram entre os pergaminhos. Um vento úmido apagou metade das lamparinas e trouxe o cheiro de musgo, madeira antiga e alguma flor que Niamh jamais conhecera.
A guardiã gritou do outro lado do corredor.
WindFur se colocou diante de Niamh, agora com as garras expostas.
Onde antes havia uma mesa de leitura, erguia-se o começo de uma floresta.
Não era uma imagem. A água da chuva misturava-se à água dos canais. Insetos luminosos voavam entre as colunas. Árvores altas demais para caber sob o teto desapareciam numa noite coberta de estrelas desconhecidas.
Niamh olhou para o mapa. Todas as constelações haviam se apagado, exceto uma.
A escura.
Dentro da floresta, alguma coisa enorme inspirou.
As folhas se inclinaram na direção da biblioteca.
E uma voz igual à de Eirene chamou:
— Niamh?